Crianças
trocando as chupetas por tablets; jovens ignorando fronteiras com ferramentas
de comunicação instantânea – o dia a dia da nova geração me leva sempre a
questionar:
Como
pode o ser humano ter evoluído tanto em apenas 70 anos?
Eu,
que na meninice nem sonhava com a possibilidade de carregar o mundo no bolso,
não consigo estancar o sentimento de carinho, curiosidade e admiração diante
dessa profusão de recursos tecnológicos à disposição dos jovens.
A
tecnologia e suas ferramentas digitais, instantâneas e de alcance mundial promovem
hoje a socialização da informação.
Há
cinco ou seis décadas, por exemplo, poucas casas tinham bibliotecas abastecidas
com as enciclopédias Barsa, Delta ou Britânica – fontes únicas de pesquisas dos
estudantes da minha época.
Hoje
a meninada tem o “doutor Google”. E não precisa de mais nada.
A
geração de meus netos tem de fato muitos bônus. Mas certamente tem também
alguns ônus.
O
principal deles, sem dúvida, é o profundo distanciamento da natureza.
Do
ângulo em que enxergo essa turma, percebo a distância abissal de hábitos e
costumes que separam esta geração daquela da minha infância.
E
quer saber? Estou convencido de que, na comparação, saímos na vantagem.
Nós
não tínhamos o computador, mas desfrutávamos das coisas simples e especiais que
só um quintal pode propiciar – o da casa de meus pais era minha janela para o
mundo.
Lá,
entre árvores frondosas, desenvolvi uma relação estreita e intensa com o vento
– um relacionamento que começou aos onze anos, quando construí com a ajuda de
um primo uma casa no topo de um imenso pé de azeitona preta.
Na
verdade não era nada mais que um pequeno tablado de madeira, mas aos meus olhos
parecia uma fortaleza. . E era pra lá que eu corria sempre que chegava da escola.
O
ritual se repetia todo santo dia: jogar a mochila num canto, trocar de roupa às
pressas e catapimba!: lá ia eu para meu universo (real e particular).
No
meu forte suspenso, convivi com todos os tipos de pássaros (alguns, confesso,
egoisticamente engaiolei). E aprendi a reconhecer a força indomável do meu
amigo vento, que se fazia presente todo o tempo.
Aprendi
na marra. Pois uma rajada mais forte fazia a galha chacoalhar loucamente.
Tinha, portanto, que estar preparado para elas.
Ou
me preparava para as grandes rajadas de vento ou caía dos meus sonhos.
Do
topo da árvore aportei no mar, adotando ainda garoto a esportividade da vela
náutica. Na época, a classe dos iniciantes era a Penguin – um pequeno barco de
dois tripulantes. Eu ficava no comando da vela e do leme; meu proeiro Venâncio
tirava o tombo.
Minha
intimidade com o vento permitia tirar máximo proveito de sua força e chegar em
primeiro lugar, sempre partilhando com ele as minhas vitórias.
De
lá prá cá, segui amadurecendo e aguçando minha cumplicidade com o vento. Posso
dizer que penso e vivo meteorologicamente – seja por instinto; seja por
disciplina.
O
que aprendi no quintal, portanto, levei para a vida.
Continuo,
por exemplo, tendo facilidade de identificar os pássaros – e sinto imenso
prazer em ser consultado pela turma do computador:
–
Rob que passarinho é esse?
–
É um Galo de Campina! – respondo, aproveitando para gracejar: – E ao contrário
do que muitos da geração Z imaginam, não se trata do “marido” de uma galinha
campinense.
Sim,
as coisas da natureza parecem estranhas para esta geração digital. Pois eles
vivem na velocidade da luz sem sair do lugar. E não conhecem o mundo que está
ao alcance da palma da mão.
O
que me leva a entender o privilégio de ter conhecido, ao longo dos últimos 70
anos, o melhor dos dois mundos.
Posso
ser um “analfa” tecnológico. Mas sou amigo do vento.
E
é por isso que sempre sopro pra ele agradecimentos sinceros por tudo o que a
vida, de forma tão generosa, vem me proporcionando (dos quintais às ondas
virtuais).
Roberto
Cavalcanti