Nos
70 anos do hino do Nordeste – Asa Branca – nossa cultura foi apunhalada por uma
visão empresarial maldosa e sem compromisso com a cultura, o que não me espanta
no capitalismo que vivemos. Antes de me aprofundar no assunto, digo logo uma
coisa, moro em Cuité, na Paraíba, mas o texto foge da minha querida serra,
ultrapassa os limites do município e as divisas do meu estado. Não tem nada a
ver com a política, mas com a forma que acharam para atrair gente e medir
forças para ver quem junta mais e se torna o maior de tal região, estado ou do
país.
Na
terra que cantou Luiz Gonzaga, fico triste ao ver a música eletrônica
“modernizando” a festa que o mesmo cantou e propagou com tanto amor. Quando não
são batidas ensurdecedoras, são letras que desmoralizam a família,
desqualificam as mulheres, a nossa cultura e ganham espaço nos maiores palcos.
Entre elas, me desculpem, mas vou descrever um trecho, uma que narra uma
traição e inicia com o amante fazendo um auto-elogio com a seguinte expressão:
“Imagina se ele soubesse o que faço contigo quando faço amor”. E dispara: “Eu
te faço de laranjinha, Eu chupo você todinha, E você gostou”.
Além
dessa pérola, tenho que ouvir balada, swingueira, axé e até algo muito parecido
com reggae dentro do “São João”. Aí você me pergunta: Você acha feio? Acho.
Você é contra? Sou. Você respeita? Respeito. Não sou obrigado a concordar com
tudo que vejo ou ouço, mas sou obrigado a respeitar. Cada um faz o que acha
melhor. Contudo, isso nunca foi e nem será São João, pode ser qualquer outra
coisa, menos São João.
São
João é Luiz Gonzaga e suas canções que retratam o nosso povo, seu sofrimento,
sua alegria e seus costumes. É Sivuca com Clara Nunes e a sua Feira de Mangaio,
é os Três do Nordeste dizendo que É Proibido Cochilar, assim como Flávio José
exaltando Mestre Osvaldo com seu Tareco e Mariola, é Matruz Com Leite, Rita de
Cássia e tantos outros que fazem a trilha sonora dessa linda festa. O que não
falta é música para o São João.
E
as outras não prestam? Não é isso, tem seu público, seu brilho, suas
qualidades, sua época, mas não é São João. Se é pra diversificar, tá errado!
Quem vai para uma festa junina vai sabendo que terá forró, do jeito que quem
vai para o carnaval da Bahia curtir axé e quem vai para Barretos curtir
sertanejo. É o momento de exaltar nossa cultura, nossos valores, nossa
história. Aí alguém diz: se não gosta, ligue um som e vá ouvir o que você
quiser. Isso é uma inversão de valores.
Infelizmente,
a disputa para ver quem junta mais, para mostrar que faz maior do que o outro
prefeito ou até mesmo fazer fortuna, onde as festas são privatizadas, acaba
tendo que colocar ritmos que fogem do verdadeiro sentido da festa para lotar o
espaço. E a cultura? A cultura que se dane! Luiz Gonzaga morreu, Elba está
velha – como disseram –, isso é ultrapassado, ok. Mas isso é São João. Pelo
amor de Deus, todos esses ritmos são bonitos e tem públicos, mas só não me faça
querer engolir isso como São João. Luiz Gonzaga deve estar se remexendo no seu
túmulo com aquele barulho ensurdecedor tocado dentro da festa que o mesmo
ajudou a construir com tanto carinho.
Minha
tristeza e revolta não é contra o sertanejo, o funk, o reggae e tantos outros
ritmos que fazem parte da variada cultura brasileira, mas em defesa do que é
nosso de direito, que elevou o nosso nome, nosso povo. Aquilo que fez o
Nordeste ser grande, ser destaque para os demais estados com nomes fortes da
nossa cultura mundo a fora levando o nosso nome e o propagando para inúmeros
países. Sei que sou criticado, mas onde chegar e os espaços que ocupar, a
defesa da nossa cultura será a minha bandeira de luta.
No
mais, repito, é a minha opinião e aceito o contraditório, só não posso aceitar
que isso que estão fazendo seja tratado como São João. Isso é um ataque de
morte a nossa cultura, estão tornando uma festa cheia de vida em uma festa
zumbi, com nome, corpo e parece aquilo que se vê, mas não é, não tem espírito,
tem barulho e em algum momento chega a ser assustador. Isso, que hoje chamam de
São João, pode ser tudo no mundo, mas São João eu garanto que não é. Concordem
se quiser, mas é a minha opinião.
Flávio
Rodrigues Fernandes
Radialista
e Blogueiro
Em
26 de junho de 2017
